“Enlaces” – Entrevista com Maria Laura Cavalcanti (UFRJ) e Joana Corrêa (UFRJ)

capa_imagem_jpeg300dpi.jpg

O Blog da BVPS publica hoje entrevista com Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti (UFRJ) e Joana Corrêa (UFRJ), organizadoras do livro Enlaces: estudos de folclore e culturas populares, lançado em 2018. Enlaces é uma homenagem à obra do antropólogo Luis Rodolfo Vilhena (1963-1997) e celebra também os 60 anos de criação do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e 50 anos do Museu de Folclore Edison Carneiro. Na entrevista, concedida a Renata de Sá Gonçalves (UFF) e Lucas Carvalho (UFF), as organizadoras abordam alguns dos principais temas que perpassam os diferentes textos e a importância do diálogo criativo de pesquisas históricas e antropológicas contemporâneas com o legado do pensamento social brasileiro dedicado ao folclore e às culturas populares.

Em nosso próximo post publicaremos resenha inédita de Lúcia Lippi Oliveira sobre Enlaces.

P: Luís Rodolfo Vilhena em sua tese Projeto e missão: o Movimento Folclórico Brasileiro (1947-1964), defendida em 1995 no Programa de Pós-graduação em Antropologia da UFRJ, reinstaurava no campo das ciências sociais brasileiras um diálogo entre gerações intelectuais. Com isso, a dicotomia que, por tanto tempo, apartou as ciências sociais dos estudos de folclore começou a ser superada. Como vocês entendem  o legado do campo de pesquisas dos estudos de folclore e da produção de saberes intelectuais, atualizadas na produção recente? Como tal superação se apresenta  em Enlaces?

R: Os estudos de folclore são um aspecto importante do pensamento social e da produção intelectual erudita que se preocupou, desde meados do século XIX, com a singularidade das expressões culturais populares e sua participação na construção de uma cultura brasileira de modo mais amplo. Nomes como os de Sílvio Romero, Celso Magalhães, e um pouco mais tarde Joaquim Ribeiro, Amadeu Amaral, e logo Mário de Andrade, Cecília Meireles, Câmara Cascudo e todas as discussões modernistas e pós modernistas são incontornáveis nesse campo de estudos. Entre os anos 1930-1960, as nascentes ciências sociais se encontraram com esse fecundo veio intelectual que trazia consigo o interesse pela etnografia da chamada cultura do povo, com suas diferentes expressões artísticas – poesia, música, cantos, medicina, artesanato e ofícios, festas,  práticas rituais e crenças religiosas,  modos de vida e visões de mundo em suma. Nesse contexto de fronteiras institucionais fluidas entre diferentes áreas de conhecimento, muitos dos intelectuais que comparecem em Enlaces tiveram atuação expressiva tanto no campo científico das ciências sociais então em consolidação como no campo da movimentação intelectual em prol do conhecimento, proteção e divulgação do chamado folclore brasileiro – no qual se buscou muitas vezes parâmetros para uma autenticidade cultural brasileira. Assunto que dá pano para manga.

Por razões diversas, nos anos 1960 tais estudos viram-se de certa forma excluídos dos debates e interesses sociológicos e antropológicos. A tese de Luís Rodolfo Vilhena, orientada por Gilberto Velho e que virou seu livro póstumo publicado em 1997, como que retoma o fio dessa meada para as ciências sociais contemporâneas a partir de um ponto de vista antropológico e compreensivo. Não interessava mais, como insistiram muitas vezes os folcloristas, saber quais expressões culturais populares seriam mais ou menos autênticas e, portanto, genuinamente folclóricas. Também não interessava mais, como insistiam por vezes sociólogos e antropólogos, questionar a legitimidade científica do conhecimento produzido pelos estudiosos do folclore. Com a pesquisa de Luís Rodolfo, o debate foi posto em novas bases: tratava-se agora de compreender os estudiosos do folclore em seus próprios termos, quais as suas categorias de pensamento e de análise? Qual o éthos e visão de mundo característicos do Movimento que promoveram e que repercutiu profundamente no país entre o final dos anos 1940 e 1960?  Como tais estudos se inseriam na história política e intelectual mais ampla? Descortinou-se com isso um novo horizonte de pesquisas.

Desde o final dos anos 1980, o diálogo com os estudos do pensamento social sempre foram fundamentais para a realização mesma dessa pesquisa, que encontrou valioso acolhimento no ambiente da ANPOCS. Desde então, também o campo antropológico em especial flexibilizou-se e abriu-se de modo mais explícito para uma grande diversidade de temas: rituais e performances, patrimônios culturais, oralidade e música, objetos e artes, narrativas e memória entre tantos outros. Essa expansão de interesses  e, desde os anos 2000, a atuação das políticas públicas de cultura relativas ao patrimônio imaterial brasileiro, trouxeram com força junto consigo os “antigos” estudos de folclore. Eles foram os primeiros a documentar muitas das expressões culturais hoje recobertas por tais políticas, e souberam registrar e preservar tais registros!

Enlaces, porém, não vem apenas reiterar a relevância da ampliação de nossos interlocutores intelectuais e acadêmicos. Nosso livro vem somar a isso uma nova contribuição que diz respeito diretamente a todo o conhecimento vivo produzido nos próprios circuitos das culturas populares por inúmeros indivíduos e grupos sociais. A cultura popular é uma arena de relações sociais heterogêneas  e muito diversas. Ela integra – como nos diria o saudoso Gilberto Velho, que sempre tanto apoio deu a nossas pesquisas – uma sociedade complexa e multifacetada onde fronteiras simbólicas e culturais não correspondem necessariamente a fronteiras sociológicas ou econômicas. Festa_Serro_Reinado Trata-se de um ambiente heterogêneo, onde oralidade e escrita convivem, onde práticas tradicionais são ressignificadas de modo permanente, onde há espaço para inovações e trocas culturais. Os estudiosos do assunto sempre tiveram seus interlocutores populares, muitas vezes participaram, e participam ainda, eles mesmos do ambiente cultural tradicional, no qual lideranças populares atuaram e atuam junto com intelectuais e pesquisadores. Os enlaces trazidos por nosso livro abrigam não só muitas gerações participantes dessa ampla vertente de estudos como revelam o imbricamento existente entre pesquisadores e atores orgânicos nos circuitos vivos da produção contemporânea da cultura popular.

P: Na Introdução ao livro, Maria Laura Cavalcanti chama a atenção para o caráter dinâmico do folclore, para o qual as pesquisas antropológicas contribuem para “desnaturalizar certas noções e pré-noções muito arraigadas na bibliografia existente a seu respeito que se reificaram em definições enganosas ou limitadoras de possibilidade de enfoque mais abrangentes” (p. 18). Na opinião de vocês, como a abordagem atual reapresenta temas e metodologias que reforçam ou mesmo deslocam perspectivas clássicas do pensamento social brasileiro sobre o assunto? Qual seria o lugar da experiência etnográfica nesse processo?

R: A perspectiva antropológica contemporânea é decisiva para a reconfiguração da própria ideia de experiência etnográfica.  É a partir dela que se torna possível dialogar criticamente com a tradição dos estudos de folclore, e é a partir dela que podem se deslocar enfoques clássicos do pensamento social que tendem por vezes a exotizar as expressões culturais populares. É preciso ter sempre em mente a natureza dinâmica dos processos culturais populares que, em sendo contemporâneos, insistem em perdurar no tempo, tendo atravessado por vezes séculos de história. Muito frequentemente, no senso comum bibliográfico,  buscam-se definições de expressões culturais populares, e os estudiosos do folclore de outrora são de modo recorrente tomados acriticamente como fontes de inquestionável autoridade sobre tais temas. O bumba-meu-boi é assim ou assado, um fandango é isso ou aquilo. Cometem-se graves equívocos, pois  definições nunca são um bom ponto de partida de uma pesquisa etnográfica, são um ponto de chegada. Uma definição equivocada na partida pode atrapalhar  e mesmo nublar imensamente a compreensão de uma expressão cultural contemporânea e vivaz. O entendimento do que significava uma pesquisa de campo nas primeiras décadas do século XX difere muito do significado disso em meados do mesmo século e, sobretudo, da segunda metade do século XX, quando se consolidaram as pós-graduações no país.  A base etnográfica da experiência de Mário de Andrade, digamos, em “Música de Feitiçaria”, de 1932, difere profundamente daquela do mesmo Mário de Andrade em “Samba rural paulista”, de 1941.Santa_anador_alto_20160703 Nesse segundo momento já se verifica em Andrade o contato com metodologias de pesquisa das ciências sociais, trazidas pelo curso de Dinah Lévi-Strauss, pelos colegas da Escola Livre de Sociologia e Política, em especial Mário Wagner Vieira da Cunha. Há entre nós, por vezes, uma certa tendência a associar a ideia de etnografia, de modo um tanto simplório, à descrição oriunda de uma pesquisa de campo. Os autores evolucionistas dos primórdios da antropologia, assim como os folcloristas da primeira metade do século certamente valorizavam o conhecimento etnográfico, entretanto os relatos de pesquisa que sustentavam o saber que construíam baseavam-se na experiência de outras pessoas – missionários, viajantes, administradores e, no nosso caso, velhas amas, trabalhadores conhecidos, a própria infância vivida num meio rural tradicional. No entendimento antropológico contemporâneo da etnografia, acentua-se o seu potencial cognitivo não só por meio da pesquisa vivencial de campo como da narrativa escrita que traz para a cena do conhecimento todo um arsenal de conceitos e teorias fundamentais. Essa experiência renovada permite um diálogo crítico com os estudos de folclore e favorece a compreensão mais livre da complexidade e da riqueza do ambiente cultural popular. Essa renovação é um dos objetivos de Enlaces.

 

P: Enlaces está dividido em três partes: “Caminhos nos circuitos da cultura popular”, “Movimentos e instituições culturais em ação” e “Homenagem a Luís Rodolfo da Paixão Vilhena”. A própria organização do livro e temas dos capítulos parecem tomar, na esteira de Luís Rodolfo Vilhena, o campo de estudos sobre folclore e cultura popular enquanto “movimento”. Ou seja, as ideias e pesquisas sobre o tema ganham relevo e sentido no interior da mobilização que inclui a ação. Como vocês enxergam atualmente a relação entre academia e espaços extra-acadêmicos dedicados ao folclore?

R:  Destacadamente a partir dos anos 2000, percebemos um cenário de grande trânsito e participação. Os temas do folclore, da cultura popular e do patrimônio imaterial despertam o interesse de novas gerações de pesquisadores das ciências humanas.

As ações de inventário, registro e salvaguarda instituídas no âmbito do Programa do Patrimônio Imaterial – com influência sobre políticas patrimoniais de cultura estaduais e municipais – e os vários editais e instâncias de participação social voltados ao campo das culturas populares dinamizaram de forma intensa o campo nas duas últimas décadas. As instituições públicas dedicadas às políticas de preservação e fomento ao campo estão repletas de profissionais formados nos ambientes acadêmicos de pesquisa de graduação e pós-graduação. As pesquisas e as formulações de políticas públicas interagem, permitindo debates intelectuais e ações muito refletidas e qualificadas.

Primeiro_Reinado_2016Algo peculiar deste novo cenário é o ingresso no ambiente acadêmico de agentes oriundos dos contextos tradicionais do campo das culturas populares, que passam a protagonizar pesquisas e ações culturais relacionadas aos seus próprios meios de origem.

P: Enlaces lança nova visão sobre a produção contemporânea das culturas populares brasileiras. Quais são os enlaces desvendados no livro entre as expressões culturais populares e seus importantes intérpretes e pesquisadores que as documentaram, registraram e pesquisaram?

R:  Os vários contextos apresentados nos capítulos da coletânea revelam a intensa colaboração de intelectuais, por meio de suas pesquisas e atividades de “resgate”, salvaguarda e fomento, na própria constituição do que compreendemos como folclore e cultura popular e suas práticas e modos de articulação e circulação.

Ana Carolina Nascimento aborda o trânsito de Edison Carneiro entre elites culturais, cenários intelectuais, casas e terreiros de umbanda e candomblé no Rio de Janeiro e Bahia, África e Brasil, nas décadas de 1940 a 1960, acentuando suas as várias contribuições do autor em meio ao polêmico debate sobre as diferentes vertentes das religiões de matriz africana no Brasil.

Wagner Chaves nos aproxima das pesquisas de médico e antropólogo Théo Brandão, nas Alagoas dos anos 1940 a 1970, revelando as especificidades de seu projeto etnográfico entre músicos e brincantes do folclore local.

Martha Abreu desvenda o legado dos folcloristas entre jongueiros do Sudeste e pesquisadores contemporâneos, a partir de registros feitos no contexto das políticas públicas atuais de inventário e salvaguarda do patrimônio imaterial.

Oswaldo Giovannini Jr. investiga a ressonância e a circularidade da produção intelectual de estudiosos de folclore ligados à Comissão Mineira de Folclore, criada em 1947 e liderada pelo pesquisador Ayres da Mata Machado, e seus percursos para a consolidação de um campo de estudos sobre o congado nos anos 1990.

Joana Corrêa ressalta a agência de congadeiros e reinadeiros junto ao folclorismo em Minas Gerais entre as décadas de 1940 e 1960, e seus desdobramentos durante os primeiros anos do regime militar, destacando como lideraram a organização de novos circuitos e modos de gerir suas práticas.

Com a leitura crítica de livros de Katarina Real, Valdemar Oliveira e Ruy Duarte, Hugo Menezes Neto nos revela a acalorada batalha frevo-samba que se instaurou no ambiente intelectual do Recife nos anos 1960 e 1970.

João Miguel Sautchuk desvenda as categorias e os fundamentos musicais centrais do Movimento Armorial, criado nos anos 1970 em Pernambuco pelo escritor Ariano Suassuna, debruçando-se sobre o processo criativo do conjunto musical Quinteto Armorial e suas representações de povo, de autenticidade e de nação.

Valéria Aquino nos apresenta o denso mundo social construído em torno da cerâmica figurativa de Taubaté, São Paulo. Trata-se de um processo no qual, entre os anos 1950 e 1970, a atuação de folcloristas – em especial Rossini Tavares de Lima, expoente da Comissão Paulista de Folclore – foi particularmente significativa.

Felipe Barros investiga as concepções e os métodos de pesquisa do pioneiro projeto de documentação da música folclórica brasileira realizado por Luiz Heitor Corrêa de Azevedo nos anos 1940,  primeira iniciativa em prol do estudo do folclore musical no meio universitário, que deu origem o acervo do Centro de Pesquisas Folclóricas da Escola Nacional de Música (atualmente na UFRJ).

Letícia Nedel nos conduz ao Rio Grande do Sul, entre os anos 1940 e 1960, e os contraposições e cisões entre, de um lado, estudiosos de folclore articulados junto à comissão estadual de folclore e, de outro, jovens secundaristas alinhados ao tradicionalismo gaúcho por meio do Instituto de Tradição e Folclore, criado em 1954.

Com o exame de dois momentos de atuação da Comissão Sergipana de Folclore, percorremos com Mesalas Santos os meandros da institucionalização das políticas de folclore e de cultura popular do estado.

Lygia Segala analisa o uso da imagem fotográfica por estudiosos de folclore a partir do vasto acervo imagético constituído e preservado na Biblioteca Amadeu Amaral do CNFCP, sediada no Rio de Janeiro, contrastando duas vertentes dos registros fotográficos realizados: aqueles que apreendem imagens dinâmicas da cultura popular, feitos no contexto das coletas e pesquisas folclóricas; e aqueles que, feitos durante reuniões, encontros e congressos, constroem imagens fixas dos intelectuais atuantes no Movimento Folclórico.

Daniel Reis apresenta distintas práticas de colecionamento, narrativas expositivas e cenários políticos dos museus voltados para a preservação e exibição de acervos de folclore, arte e cultura popular, desde os anos 1940 e até nossos dias.

Ana Teles da Silva debruça-se sobre a Revista Brasileira de Folclore, publicação da CDFB, editada entre 1961 e 1976. A autora enfoca os mecanismos de legitimação desenvolvidos por essa área de estudos e a consagração tanto de expressões características do folclore regional quanto de seus autores, considerados intelectuais representativos da produção de pesquisa de seus respectivos estados.

Cecília de Mendonça aborda a atuação de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo na Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil (atual UFRJ) que, iniciada em 1939, prossegue até 1947, quando ele assume o cargo de diretor da Divisão de Música da Unesco. Muito próximo a Mário de Andrade, Luiz Heitor abriu o ensino musical para os temas do folclore e da cultura popular.

Renata de Sá Gonçalves e Catarina Ribeiro da Silveira apreciam seis décadas do Prêmio Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular, promovido pelo CNFCP, desde sua primeira edição, em 1960, até 2015, evidenciando diferentes formas de compreensão do campo de estudos de folclore e das culturas populares ao longo do tempo.

Todos os capítulos resultam de pesquisas atuais e seus autores são antropólogos e historiadores também atores dentro do campo das culturas populares.

 

* As fotos que ilustram o post são de autoria de Joana Corrêa como registro de suas pesquisas sobre os Congadeiros e o Reinado na Festa de Nossa Senhora do Rosário do Serro (MG) de 2014 a 2018.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s